Goiás avança como polo de inovação e tecnologia para o agronegócio
Expansão das agritechs, conectividade no campo e aproximação entre empresas, universidades e startups fortalecem um novo ecossistema de soluções para a produção rural
Por Jorge Neris
Foto: Divulgação
Conhecido pela força da produção agropecuária, Goiás começa a ganhar espaço também em outra frente estratégica para o campo: o desenvolvimento de tecnologia. O avanço das agritechs, os investimentos em conectividade e a aproximação entre produtores, empresas, universidades e startups vêm criando no estado um ambiente voltado à transformação digital do agronegócio.
O movimento acompanha uma mudança que ocorre em toda a cadeia produtiva brasileira. Inteligência artificial, agricultura de precisão, análise de dados, automação, rastreabilidade, biotecnologia e bioinsumos já fazem parte de uma nova geração de ferramentas desenvolvidas para aumentar a eficiência da produção e apoiar decisões dentro e fora da porteira.
O Radar Agtech Brasil já identificou mais de 2 mil startups ligadas ao agronegócio no país, com soluções que vão da gestão das propriedades à logística, monitoramento remoto, inteligência geográfica, recursos humanos e biotecnologia.
Em Goiás, a presença de uma cadeia agropecuária diversificada cria também um ambiente para testar, desenvolver e ampliar essas tecnologias.
Conectividade abre caminho para a digitalização
A transformação tecnológica do campo, no entanto, depende de uma infraestrutura que ainda representa desafio em muitas regiões: acesso à internet.
Nos últimos anos, iniciativas públicas e privadas passaram a ampliar a conectividade em áreas rurais de Goiás. Entre elas está o Cidadão Tech Campo, programa do Governo de Goiás voltado à instalação de infraestrutura de internet em comunidades rurais e regiões com dificuldade de acesso.
Ao mesmo tempo, investimentos em ciência, tecnologia e inovação vêm aproximando centros de pesquisa, universidades e empresas do setor produtivo.
Essa conexão é importante porque boa parte das novas ferramentas utilizadas no agro depende da transmissão e análise constante de informações. Máquinas conectadas, sensores, imagens de satélite e sistemas de gestão produzem dados que permitem acompanhar lavouras, rebanhos e operações praticamente em tempo real.
Tecnologia avança, mas falta gente qualificada
A digitalização trouxe também um desafio que não se resolve apenas com máquinas e softwares: encontrar profissionais preparados para trabalhar com as novas ferramentas.
Foi olhando para essa demanda que surgiu em Goiás a AgroSkills, startup especializada em recrutamento, desenvolvimento de carreiras e gestão estratégica de talentos para o agronegócio.
Segundo a fundadora, Ana Carolina Cavalcanti, a transformação tecnológica mudou também o perfil profissional procurado pelas empresas.
“O agro está vivendo uma transformação muito acelerada. Hoje as empresas precisam de profissionais capazes de trabalhar com tecnologia, análise de dados, inteligência artificial e novos modelos de gestão. A inovação não depende apenas das ferramentas disponíveis, mas das pessoas que conseguem transformar essas ferramentas em resultados.”
A empresa desenvolveu uma plataforma que reúne recrutamento, assessment, inteligência de mercado e desenvolvimento profissional, buscando aproximar empresas, profissionais e instituições de ensino.
“Nosso propósito é aproximar pessoas e oportunidades dentro do agro. Quando conseguimos reduzir o déficit de profissionais qualificados, ajudamos empresas a crescerem e fortalecemos toda a cadeia produtiva”, afirma Ana Carolina.
Startups encontram espaço no agro goiano
O ecossistema goiano reúne empresas que atuam em diferentes pontos da cadeia. Entre elas estão a Sou. Agro Soluções, com atuação em gestão e logística, e a Geoinova, especializada em inteligência geográfica aplicada ao campo.
Parte desse ambiente passa pelo Hub Cerrado, que aproxima startups, investidores, universidades e grandes empresas e busca acelerar o desenvolvimento de novos negócios.
Para o diretor do Hub Cerrado, Uaitã Pires, Goiás começa a combinar sua tradição produtiva com uma nova capacidade de desenvolver soluções para o próprio setor.
“Durante muito tempo Goiás foi reconhecido pela força da produção agrícola. Agora começamos a construir uma nova identidade: a de um estado que também desenvolve tecnologia para o agronegócio. Essa combinação entre produção, conhecimento e inovação cria oportunidades não apenas para startups, mas para toda a cadeia produtiva.”
Essa proximidade com a produção é uma vantagem para empresas de tecnologia. Soluções podem ser desenvolvidas e testadas diante de problemas reais enfrentados no campo e, posteriormente, ganhar escala para outras regiões produtoras.
Biotecnologia amplia fronteiras
A inovação no agro goiano também avança além das ferramentas digitais. Bioinsumos, melhoramento genético, manejo sustentável e agricultura regenerativa estão entre as áreas que ganham espaço à medida que produtores buscam combinar produtividade, redução de custos e maior eficiência no uso dos recursos.
A integração entre pesquisa científica e produção abre ainda oportunidades para que tecnologias desenvolvidas no estado sejam utilizadas em outras regiões agrícolas.
O cenário aponta para um campo cada vez mais conectado. Inteligência artificial, biotecnologia, dados, máquinas e conectividade tendem a trabalhar de forma integrada, mas o avanço dessas tecnologias dependerá também da capacidade de levá-las à realidade das propriedades e preparar profissionais para utilizá-las.
Para Goiás, essa transformação acrescenta uma nova dimensão a uma atividade que já ocupa posição central na economia estadual: além de produzir grãos, carnes, leite e biocombustíveis, o estado busca ampliar sua participação também na geração de tecnologia e conhecimento para o agro.